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terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

UM JOVEM PRÍNCIPE CRISTÃO - PARTE III (FINAL)


ERA PRECISO

Estas lembranças nos mostram uma natureza elevada ao Supremo Bem por dons superiores de nascença num meio favorável. Uma personalidade não tem a docilidade de uma muda tratada com cuidados especiais por um jardineiro artista. Exige mais, necessitará sempre da colaboração do livre arbítrio contra a soma das más tendências herdadas ou, cuja insidiosa companhia até os melhores entre nós tem que combater.
Naquele rapaz de vinte anos, tão correto e educado, ninguém podia ver o menino tímido e selvagem, a quem era preciso repreender para que consentisse em se apresentar. Uma vez fugiu dum beijo de D. Amélia, Rainha de Portugal. Episódio vituperado pelo Conde D'Eu:"Onde já se viu! Negar-se a beijar a Rainha!"
- É verdade - concordava mais tarde - confesso que aquilo não foi muito delicado, sobretudo tratando-se duma Rainha!."
A razão para empreender uma ação estava justamente no grau de dificuldade que esta exigia. Ouvira isto, muitas vezes, de boca paterna, e também muitas vezes aplicou tal princípio, lembrando-se dele diretamente ou sofrendo sua ação no subconsciente. D. Luís Gastão era voluntarioso, mas com calma e dignidade; conforme a razão e não conforme o capricho.
Com 14 anos demonstrou um domínio de si superior á sua idade. Guiando sua bicicleta, seguia seu preceptor que ia guiando na calçada, e não viu um enorme Packard que vinha silenciosamente, e com a roda traseira, o atirou com sua bicleta na pedra da calçada. Os que passavam acorreram e o Conde Tyszkiewicz, julgara ser um acidente fatal, enquanto D. Luís se levantou, sacudiu a poeira e declarou querer voltar para casa. Foi elvado á Vila Maria Teresa no carro que o atropelara. Recusou ajuda para subir as escadas, e cambaleando manteve-se em pé. O médico, apenas lhe recomendou repouso, por não encontrar fraturas, e o avô Caserta, apenas lhe inspecionou, lhe disse: Isso não foi nada.
Certos episódios médicos, acrescentam ao dito anterior.
Certa feita, necessitou tirar um cisco preso á mucosa da pálpebra. Teve que revirar as pálpebras para tanto. "Este seu aluno é corajoso, padre!" - disse à Monsenhor René Delair, o médico.
Outra quando foi preciso retirar uma farpa presa à unha. V. A. I. é de uma família de bravos! - Exclamou o médico.
A mesma força de vontade, aplicava nos estudos. Qaundo reagia vilentamente contra uma matéria que lhe desgostava, com um: "Não faço mais!", logo o reprimia com um: "Que estupidez desistir assim. Vou tentar de novo.” Estupidez. Notem bem a palavra. Sempre a razão levando a vontade pelo caminho certo. Suas redações eram cobertas de rasuras e sua caligrafia pesada. Mas a linguagem perfeita, com uma ortografia francesa conquistada com muita luta.
Não procurava a glória em seus trabalhos. Só permitira que eu lêsse suas redações á D. Maria Pia por eu dar-lhe argumento razoável. A razão sempre o vencia.
Nada lhe era mais desagradável que um elogio: "Da próxima vez farei bobagem para me passar por menos inteligente e me deixarão em paz."
Classificando-se em primeiro lugar num concurso, atribuiu a vitória á facilidade do tema.
Traçava com mãos hábeis obtendo temas de muito bom gosto com aquarela. Sempre notando os defeitos e retoques apontados pelo professor. Esculpia em cera pequenos cavalos com formas precisas e elegantes, bem como em cartolina, pequenos aviões, que oferecia ao primeiro que se encantasse com eles.
Preferia no entanto o esporte, sempre deixando-o ao ser chamado. "É chato, mas era preciso.
Sem nenhum pedantismo, anunciava alegremente um: " Decidi... " E sua decisão era executada.
Consagrava horas á leitura, depois de muito esforço em adquirir o hábito de ler. Compreendera o calor desse dever intelectual, e ali encontrava novas diretivas para sua vida moral.  
Certa vez, quebrou o vidro da porta do Mas com um soco, para socorrer uma empregada vítima de um buldogue nervoso, que na escuridão do cômodo, julgara ser um gatuno surpreendido. Feriu-se na pressa e resolveu o assunto silenciando o cão. Foi essa a última ação heróica de sua vida. Socorrer uma criada devotada.

EM MEUS BRAÇOS DEUS BUSCA SUA ALMA

Filho da graça, ainda que com simplicidade , nosso príncipe foi um perfeito filho do dever. Não procurava o extraordinário. Sem esforço passava do humano ao divino. Deixava os heróis épicos cujos feitos traduzia do latim para o francês, pelo campo de tênis, retirando-se em sua casa, para o oratório familiar para rezar, ali, o terço. Com pequenos atos cotidianos preparava a eternidade.
Com ele estava a graça do nascimento, do nascimento batismal.
Ecutava e aprendia a doutrina cristã, reservando para ela o melhor da sua aplicação.
A Época da Primeira Comunhão chegou. Guiado por um excelente religioso carmelita, amigo da família (Fr. Constantino OCD), entrou nos exercícios preparatórios sem constrangimento, em companhia de seu irmão e sua prima Isabel. A 30 de outubro de 1918, sem choque (o natural seria morrermos ao comungar), o contato teve lugar entre o Senhor que se dava e sua pequena alma, onde a graça batismal permaneceria intacta. Simplesmente era um Santo Hábito que começava, soberano dos outros, naturalmente.
Sua piedade nada tinha de sentimental. Para ele era um dever ao qual obedecia sério e pontual. Gostava de acolitar a Missa. Oferecia-se espontaneamente, quer na capela de casa, quer na Igreja Paroquial. É uma honra! (Negada aos anjos diga-se) Notava-se sua posição, correta e firme, atenta ao Sacrifício ao qual se unia pela Comunhão.
D. Luis Gastão, não era um devoto de longas rezas. Não sabia nem prolongar, nem encurtar suas orações, principalmente nas ações de graça e visitas ao Santíssimo Sacramento. Ele sempre tão ativo, ficava calmo e recolhido, até o momento que julgava suficiente a homenagem dada Àquele diante de Quem viera se ajoelhar.
"Quando ele entrava na capela, só aquele Sinal da Cruz, nos impelia ao recolhimento." - Observa, sua avó materna, a Condessa de Caserta.
Numa igreja fria das montanhas de Auvernia, em Aubrac, Sul da França, ele recusou, obstinadamente um genuflexório. Cansado, manteve-se firme, de braços cruzados, ajoelhado sobre as lajes já gastas pelo uso de gerações de devotos. Sem pena de si mesmo, curvava sua alta estatura, e articulava distintamente as respostas da Santa Missa.
É verdade que sua piedade não era sentimental, mas, de modo algum excluía a afetividade. Amava com ternura a Mãe de Deus (Não é isso sinal de predestinação?). Certa vez, falava-se de devoções preferidas, e ele não se conteve: "Para mim, não há como a Virgem Maria." Depois, voltou-se, confuso pela demonstração contrária aos seus hábitos de reserva.
Todos os anos, com os seus, empreendia uma peregrinação a Lourdes. A última foi em Janeiro de 1931.
No terrível frio dos Pirineus, enquanto sua mãe rezava na gruta, ele foi mergulhar na piscina gelada. Durante três dias repetiu o sacrifício. Pedia sua cura. Para quê? Para gozar a vida? E quando houve naquele rapaz algum impulso nessa direção. (...)
Fosse qual fosse a sua atitude diante do chamado do Senhor, o "Mestre das Almas" voltara os olhos para ele e o amara. Não esperou por uma iniciativa de sua parte. Foi uma rude intervenção. O Grande Mestre dos Sacrifícios cortou o fio daquela natureza ágil, condenando-a à imobilidade da inatividade. A luta contra o Anjo, na noite.
Um dia, assistia a uma partida de futebol como simples espectador, contava os pontos, anotava os erros, esquecia o cansaço. " Sinto um formigamento nos pés. Quando tornarei a usar minhas pernas de verdade?" (Podia andar, com dificuldade)
Um dia, levantou-se e saiu febrilmente a correr pelo jardim. Entrou em casa, onde encontraram-no ofegante. "Que tem você?" - "Nada. Estou enferrujando-me de não fazer nada, preciso me desenferrujar." Fizeram lembrar-se então da preocupação de sua mãe pela sua demora em se recolher.
Sua mãe, como ele a amava! A eventualidade da grande separação surgia.
D. Maria Pia tinha requisitado uma enfermeira para partilhar os cuidados. Ele só aceitou quando lhe disseram que ela seria uma religiosa, Irmã Lúcia do Bon Secours de Troys, habituada a tais circunstâncias por quem ele tinha especial simpatia.
Os serviços dos médicos não eram - via-se bem - recebidos com alegria sincera. O médico significava a injunção de ficar tranqüilo, o prazo importo à impaciência. Mas, recíproca era a simpatia entre ambos. E nos últimos dias de vida, o Príncipe Imperial encarregou a mãe de agradecer tudo ao bom doutor.
O trabalho de desprendimento seguia lentamente. Certa vez suspirou: "Afinal, se Deus quer que eu esteja doente."
A vontade de Deus era sua preocupação: "Que Deus queira que eu viva ou morra, para mim é a mesma coisa. Afinal, todos nós não vamos morrer um dia? Mas, se eu morrer agora, não é preciso que ninguém sofra."
- "Sinceramente, não se importa?" - insistia a pobre mãe.
- "Não. Tanto faz."
Que me permitam uma pausa. Não se sente aqui um contato com o Divino? A indiferença, naquele jovem não era desânimo nem linfatismo: era a vitória de uma experiência pela qual percebera, logo, a insuficiência do mundo em encher seu coração.(...)Em seu olhar claro, lia-se o apelo divino à alma e a preferência absoluta por seu Deus.
(...)
Um dia lhe contaram os excessos de um santo. Ele concordou: - "Ele estava certo, pois, por amor a Deus, nada é demasiado." Nunca largava o Rosário. Quando o surpreendia a recitá-lo, guardava, entre os dedos, a conta da dezena começada, e não escondia o incômodo de ser interrompido. Depois voltava ao recolhimento.
Um dia quando se impacientava com a doença, a irmã enfermeira lhe aconselhou que invocasse pelo Rosário as Almas do Purgatório. Ele aquietou-se imediatamente, confessando, humildemente, seu mau-caráter.
Sua mãe lhe sugeriu ''oferecer tudo por seus pecados."
- "E você acha que eu já não o fiz?"No dia de sua morte, a mãe o surpreendeu quando ele tinha, entre as mãos, uma imagem de Nsa. Sra. do Parto. Aos pés da imagem, a qual a Princesa Imperial Viúva lhe havia trazido de sua peregrinação a Neuilly, encontravam-se gravadas estas palavras: Em meus braços, Deus busca tua alma, vem, meu filho.  
Algumas horas mais tarde o jovem atenderia ao chamado.
Era uma terça-feira, chegava ao fim a festa da Natividade de Nossa Senhora. Ele tinha vinte anos.
Nada fazia prever um fim tão rápido. No entanto, a Princesa Imperial Vivúva, como mãe cristã previdente havia lhe pensado administrar os últimos sacramentos. Tranqüilizada pelo médico, ela recuperou a esperança., bem como o próprio amigo padre a quem, D. Luís Gastão quisera ter por companheiro durante o verão. Aliás, ele se confessara e comungara na primeira sexta-feira do mês.
Tranqüilizado, o padre, que já tinha adiado uma viagem, voltou atrás, despediu-se do Príncipe Imperial, mas, a caminho da estação, D. Pedro Henrique que amavelmente, o levava de carro, objetou: "O senhor não deveria partir, sua presença pode ser útil."
De volta, anunciaram ao doente que o padre tinha perdido o trem. O Príncipe Imperial sorriu delicadamente: - "O pobre padre deve estar bem aborrecido."
O dia passou sem alarmes, mas a Princesa Imperial Viúva não escondia a inquietação.
Não era ainda meia-noite quando o rapaz se sentiu oprimido: "Irmã, - pediu ele - a água de Lourdes..." Foram suas últimas palavras, um ato de Fé em sua Mãe do Céu, que lhe recusara a vida na terra...
A Princesa Dona Maria Pia correu a acordar o padre que desceu às pressas, à cabeceira do jovem. Esse, em plena consciência, fixou-lhe um olhar infinitamente triste e suplicante, que o padre compreendeu.
Depois de lhe dizer as palavras sacramentais, lhe disse: - "Meu filho, esteja em paz! Com o Bom Jesus. Ele lhe abre os braços. Vai a Ele com a graça e a inocência do batismo."
Alguns segundos, e sua cabeça tombou em eterno repouso.
O Cardeal Verdier, informado, dignou-se, com sua bondade, vir consolar sua mãe sofredora e orar pelo defunto. Fez-se intérprete de todos ao exclamar:
"Nada está triste neste quarto, tudo recende à pureza, D. Luís Gastão está no Céu, eu o sinto, eu o invoco e ainda o invocarei... Amanhã rezarei a Missa com o cálice que Pio XI me deu para a Missa de minha Sagração Episcopal, dizendo-me: 'Ninguém além de nós celebrou com este cálice." Ali depositarei a alma de D. Luís Gastão e oferecerei a Deus."
A família conduziu os restos mortais de D. Luís Gastão a Dreux, para a Capela de São Luís, onde os descendentes de Luís Felipe tem direito à túmulo. Por ordem da Mãe, Dona Maria Pia, nada de aparência mundana, apenas uma camisa de noite, como se estivesse dormindo, o cobriria. O Caixão coberto com a Bandeira Imperial do Brasil foi posto sobre um catafalco, recoberto com uma toalha branca onde estava bordada uma coroa real com um escudo blau com Flores-de-lis de França e o alambel prata dos Orleàns. Terminada a Missa de Réquiem o esquife foi depositado em um túmulo de pedra ao lado do seu Pai, e dos avós o Conde e a Condessa d'Eu. Aos pés nada mais que uma cruz de flores brancas oferecida pelos criados, com consentimento da Princesa Imperial Viúva.
"Que belo dia! - nota um príncipe, familiar distante, Padre Jorge de Saxe - Sim! Apesar de tudo, que belo dia, mas a luz que ele vê lá em cima é bem mais bela."
Palavras de esperança cristã vindas de uma família que havia dado á Igreja duas vocações sacerdotais: a do irmão, Maximiliano Odo da Saxônia, a própria, tendo como ancestral comum com D. Luís Gastão a D. Pedro I.

NÃO QUERO SER UM HOMEM INÚTIL

Apesar de toda a piedade e consciência madura, é estranho notar a ausência do tema vocação na história, nota Monsenhor René Delair, hora, Dom Luís Gastão era um homem do dever, e como seu dever primordial era na Casa Imperial do Brasil, ele devia esperar o matrimônio de Dom Pedro Henrique seu irmão, para responder o chamado divino. O que Deus quer é o dever, sou um homem do dever. Repetia sempre a mim.
Terminamos essa biografia com uma frase de D. Luís transcrita por Monsenhor Delair: ''NÃO GOSTO QUE SE OCUPEM DE MIM"
Com que sinceridade deveríamos dizê-la e segui-la, disto poderíamos fazer o resumo da vida de D. Luís e o cronograma da nossa: ''NÃO GOSTO QUE SE OCUPEM DE MIM"

sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

UM JOVEM PRÍNCIPE CRISTÃO - PARTE II

Dom Pedro Henrique, Dom Luis, Dona Maria Pia e Dona Pia Maria
TESTEMUNHO DO SANGUE

A vida do jovem transcorria num meio relativamente restrito á família. Poucas viagens. A primeira ao Brasil, por ocasião do Centenário da Independência, em 1922. Viagem marcada pela morte do avô a bordo do 'Massilia', quando o navio entrava em águas brasileiras.
Outras, com seu tio, o infante Carlos de Bourbon-Sicília, à Argélia e à Tunísia. Delas fez um relatório de notas concretas, com fatos, isento de impressões pessoais.
Brincava com seus irmãos e primos, preferia os jogos de estratégia e inteligência, nos quais exigia absoluto silêncio. Mas, explodia com as outras crianças num ruidoso esconde-esconde que ia do sótão ao porão, que parecia um tufão a varrer as escadas, estremecendo os lustres do teto. Perseguiam-se vertiginosamente, até pelos telhados, de tal forma que os vizinhos vinham preocupados avisar à família imperial que 'as crianças acabariam se matando.'
Também fazia um curioso trenó de madeira, retirada da mesa, que descia a montanha vertiginosa da escadaria do salão de festas.
Gostava de futebol, passeios de automóvel pela França, andar de bicicleta por Provença, nadar e praticar regatas na costa de Cannes.
Sua rotina diária: levantava-se rapidamente, três passos, um beijo no crucifixo. pontualidade na hora da aula, com as lições estudadas. Repetia com firmeza os textos de Virgílio, ou de Corneille, ou então um texto litúrgico, ao qual reservava especial aplicação.
Digno e polido para com os empregados, nunca abusava de seus serviços. "Sempre servia antes de mandar." - Lembrava um deles.
Desde criança, sempre preocupado em não incomodar os outros, escondia seus sofrimentos. Seguia o lema de seu pai: "Nunca se queixar de nada."
Uma camareira comentava sobre ele: Aquele menino não tinha amor algum por si mesmo. Para ele, o próprio corpo não existia."
Nunca lhe agradou ver espetáculos imodestos, nunca sorrira maliciosamente. Certa vez, folheando um revista de ilustrações ousadas, jogou-a longe e disse: "Que estupidez, francamente." 
Não era, contudo, um insensível à reações exteriores, amava, mas com pureza.
Certa feita, no Castelo d'Eu, ele brincava com uma menina brasileira. Parou, por um momento, a observá-la e disse com um amável sorriso: "Que bonitos olhos negros você tem." Outra vez, no Brasil, com outra menina, passeando no jardim, ela parou diante de uma roseira, e ele veio com um galanteio: "Nenhuma delas é tão bonita quanto você, Senhorita!"
Coitado daquele que viesse a recordar esses episódios diante do herói, receberia uma resposta bem dada e desconcertante.
D. Luís, com sua simplicidade e simpatia, conquistou o coração dos brasileiros, ainda saudosos dos tempos de D. Pedro II.
Era patriota, e sentia orgulho da raça brasileira. De volta à França, seu patriotismo não desgostava os fiéis da Casa de França. Recebera os germens de amor à pátria brasileira no exílio, por parte da Imperatriz de Direito, e por parte do conde d'Eu que contava ardentemente as vitórias de Peribebuí e Campo Grande durante a guerra contra o Paraguai.
No curso de educação, os tropeços eram inevitáveis, mas ele reagia sempre:um maus caráter, eu sei, mas vou me corrigir..."
Certa vez, o autor deste livro o repreendeu por algum excesso de vivacidade. pouco depois ele batia sem sua porta, fortemente, chorando: "Quero uma punição, eu mereço."
Sua consciência delicada, jamais chegava aos escrúpulos. Sempre pronto a abnegar-se em favor dos outros, incluso do Fox Terrier, que havia corrigido com os dentes a beleza tão odiada por ele de seu nariz bourbônico. Sangrando, pediu à mãe que o poupasse, pois o incidente era culpa sua. Saiu, contente desta história, já que nada lhe desagradava mais que ser bonito.
Demonstrava uma grande independência de espírito. Certa feita, num serão familiar, se lia e estudava as narrativas dos trois glorieuses e do advento ao trono do ramo mais novo dos Bourbons. Ele, timidamente, concentrado e pensativo disse: "Talvez, Luís Felipe fosse... um pouco usurpador."
Os Orleans e Bourbons haviam lhe legado a aptidão e o gosto pela ação. Mas sua alma se extasiava em demasiada paz e tranqüilidade, contemplação e gosto por admirar a beleza das catedrais européias. A de Chartes, é a mais bela de todas."
A graça da Fé, transportava sua alma para junto do coro de gerações dos fiéis, invisíveis, que povoam aquelas naves, onde (...)ele não pensava, mas tinha, no entanto, colóquios com a Virgem. Sua alma se abria numa contemplação sem palavras, numa contemplação de pura Fé. Da Belle Verrière. Maria se inclinava para você num convite sorridente: "Isto aqui é belo, mas o Céu, onde reino com meu Filho, é mais belo ainda, vem, não demores! A terra não é para os puros e sinceros como tu."
Notre Dame du Port foi a última que admirou.
Amava o Brasil e a França, sempre dizia: "Depois do Brasil, nenhuma pátria é mais bela que a França!"

O MAS SAINT LOUIS

Como ele amava o Mas Saint Louis. Chamava-o Paraíso de Mandelieu!
A moradia não era vasta, mas aconchegante e suficiente para a família. Parva sed apta, construída em estilo provençal.
Ao pé do Esterel, entre pinheiros e ciprestes, construído de modo que se podia ver das janelas os jardins e a baía, escondendo-se somente a enseada de Théole pelo Monte Saint Pierre.
A leste, os Alpes, cujas neves até abril se confundem com as nuvens.
Dom Luís gostava de admirar os barcos que visitavam a baía desde sua janela do quarto do Mas Saint Louis. Quando não, e isto mais que admirar, dar uma volta no Crévard, Vvltando com o barco carregado de linguados, pescadas, ou rodovalhos. E se este virava, nadava de dar inveja aos habitantes do mar. Às vezes reservava as lanchas de Luis Fanciuli, e quando não ia com a família para as sombras dos pinheiros comer bouillabaisse(sopa de frutos do mar).
Do quarto do ângulo esquerdo do primeiro andar, se podia ver sua silhueta acolhedora sorrindo para este amigo, quando o visitava no Mas.
Porém, à memória do visitante veio uma queixa do rapaz a sua mãe quando o médico lhe aconselhou a ir para as montanhas respirar ar fresco: Mamãe, fiquemos em Mandelieu! Se você me levar, não o verei mais." Ele não gostava de dramatizar nada, e disse isso com extrema sinceridade.
Fisicamente, era bem saudável, seu aperto de mão esmagava as falanges de quem o cumprimentava, os joelhos dominava a montaria, e os tornozelos se moviam para um potente chute de futebol (afinal, era príncipe do Brasil ou não?). Mas o que dizer de reações violentas, bater de portas ferir a cabeça contra a parede do quarto? Era o primeiro tempo ao qual sucedia, imediatamente um segundo, o do controle vitorioso, sorridente e conciliador. A tempestade seguida de bonança.
Desapegado de todas coisas que comumente agradam à juventude. Guardava em seu bolso, a esmola do capelão, e uma cama de vento lhe bastava se pendesse desde a cabeceira um crucifixo. Quiseram dar a seu quarto uma melhor decoração: "Assim como está basta!" - Lhes respondeu. Sua mãe quis trocar seu pequeno Peugeot 201 por um veículo mais possante: "O meu está bom!"
Com os parentes, deferência afetuosa, disposição espontânea, e sincera em prestar serviços e ceder o melhor lugar.
Não podemos deixar de citar um episódio tal qual contaram a Monsenhor René Delair.
Quando ainda menino, viajava com a família de trem e uma senhora proferiu um elogio: "Que menino bonito!"
Ele socou o nariz com a testa crispada de raiva e repetia: "É chato ser bonito, isso faz você me olhar."

BEM NA MODA

Desde o levantar-se, quando beijava seu crucifixo de madeira. (Confesso que passei a fazer isso quando li o livro), Até se deitar, quando repetia o gesto, piedoso, D. Luís Gastão mostrava-se um perfeito filho do dever.
Que adolescente austero! - dirão. Sim, era a disciplina de vida que demonstrava profundas convicções cristãs. Mas, D. Luís Gastão nunca foi um santo triste e introvertido (Dizíamos no seminário de La Reja, que um santo triste é um triste santo). Encontrava o objetivo principal de seu músculos na atividade física. Cavaleiro consumado, seu porte sobre o animal era de correção acadêmica. "Eis o duque de Aumale." - exclamava o professor que conhecera seu tio-bisavô.
A refeição em família ainda não tinha acabado e ele já vivia com o irmão, a partida de futebol planejada.
Estava perfeitamente a par dos acontecimentos esportivos, dos quais nenhuma minúcia escapava. Fazia cronogramas com letra serrada e regular, dum campeonato esportivo, bem na moda. Era um ansioso torcedor da equipe francesa. (Nota de rodapé: eram raras as equipes brasileiras na época).
Adversário temível, mas cortês, ele logo se colocou no primeiro plano nos campeonatos de Cannes. Até hoje os amadores lembram-se dele (...) nos campos de tênis de Beau Site e de Hespérides. Auto, moto, regatas. (...) Empreendia audácias nas águas caprichosas do lago de Lucerna na Suíça, com seus primos arquiduques da Áustria. chegou a completar em quatro horas, a distância de Lucerna a Fuellen (36 KM), a remo com seus primos supracitados. E como ele estava orgulhoso disso.
Como todos os enérgicos ele não amava a vida por ela em si, mas por seu emprego interessante e generoso.Sua timidez natural, dava lugar, dia a dia, e cada vez mais, àquela alegria que se inspirava em todas as circunstâncias.
  

quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

UM JOVEM PRÍNCIPE CRISTÃO - PARTE I

UM JOVEM PRÍNCIPE CRISTÃO, DOM LUÍS GASTÃO DO BRASIL
(1911-1930)
Coletânea de textos do livro de Monsenhor René Delair
 

Da direita para esquerda: Dona Pia Maria, Dom Pedro Henrique e nosso biografado, D. Luis Gastão do Brasil

Apresentação

Tradução ainda inédita no Brasil, principia por uma carta de reivindicação de S.A.I. Dona Maria Pia de Bourboun-Sicília reclamando do modo de pintar seu filho usado pelo biógrafo. Diz ela ao Professor Sebastião Pagano, que falta ressaltar ''de maneira mais categórica a energia de caráter tão viril, de Luís Gastão, as suas idéias tão largas e a sua inteligência. Erro comum dos biógrafos que tentam ressaltar a santidade do biografado. Mas, digo eu, que a santidade é justamente o oposto da passividade efeminada com que sonha o homem moderno (cada vez menos homem e mais moderno), é a virilidade, VIRILITER AGITE, como diz o Deuteronômio (31,6). A santidade é a vivência corajosa das leis de Deus e a crença viril em sua existência e em sua revelação, capaz de levar homens ao meio do deserto, ao fundo das covas de leões, à grutas solitárias, a viver a pureza e a castidade, a impor a sua nobreza de espírito perante o inimigo covarde que te ameaça de morte com um fuzil. A santidade é viver tudo o que a civilização moderna quer deitar abaixo, "tudo quanto é belo, e nobre, e heróico neste mundo. Mas não duvido que os bons triunfem e que vejamos melhores dias, voltando as nações às antigas tradições que fizeram a sua grandeza e felicidade." (Carta de S.A.I. D. Maria Pia a Sebastião Pagano)
Embasado nisso, extraio do livro de Monsenhor René Delair, aquilo que cri mais relevante e ressaltador deste ideal de santidade verdadeira. 

Introdução
Sobre a relevância da obra:
"Se acharmos que a vida de um jovem, que transcorreu num estado de graça e de inocência, (...), não é magnificamente instrutiva e edificante para o crente, a quem interessa os contatos entre a alma e Deus, (...) - seria pretender que os esboços nos quais se exercitou e se adestrou um mestre da arte, um Rafael, por exemplo, nada ensinem aos que querem compreender a ascensão do gênio em direção ao mais perfeito."
E referindo-se a Dom Luís expressamente, diz Monsenhor Delair:
"Augusta e inspirada voz à qual respondem as dos que com ele conviveram, como um coro de tragédia antiga: 'Ele era bom demais para a terra, Deus teve pressa de tê-lo junto de si.'   
 
UM TÍPICO BOURBON

Nasceu em Cannes, 19 de fevereiro de 1911, na Vila Maria Teresa, modesto palácio de exílio dos Condes de Caserta, seus avós maternos.
Era o segundo filho do matrimônio de D. Luís, o Príncipe Perfeito, com D. Maria Pia. O primeiro filho, nascido à ano e meio, Dom Henrique, e dois anos mais tarde nasceria uma irmã aos dois príncipes, a princesa Pia Maria.
Inclinado sobre o berço, o pai correu para anunciar aos avós, fora do quarto, o nascimento de "um típico Bourbon..."
Os que contemplavam o principezinho adormecido e suas mantas de brasões imperiais e reais, jamais poderiam pensar, sem emoção, no número de raças ilustres que aquela frágil criaturinha representava.
Por sua avó paterna, a Condessa D'Eu, Princesa Isabel do Brasil, ele tinha por bisavó a Dom Pedro II, Imperador do Brasil, e descendia dos Reis de Portugal.
Por meio da Imperatriz Dona Leopoldina, mãe de Dom Pedro II, filha do Imperador Francisco II, descendia dos imperadores alemães.
E nas altas ascendências genealógicas, alcançava a descendência dos impérios austríacos, a descendência capetíngia dos Valois.
Pelos condes de Caserta, a descendência dos Reis de Nápoles. Por seus antepassados, as casas reais da Espanha, os Bourbon da França, São Luiz IX. E pelo Conde d'Eu, de Luiz XII, por segunda linha.
Entretanto, aquele menino que encontrava em cada página de história os feitos grandiosos de seus antepassados, jamais demonstraria auto-complacência e orgulho.
Nada o desgostava mais que uma alusão as seus nascimento: "Ora, não gosto que me falem disso".
O pequeno sempre preferia a reserva e a simplicidade, estas o devem ter ensinado a viver tão modestamente, consciente de que a verdadeira nobreza se impõe por si mesma.
A primeira infância se dividiu em estadas no Castelo d'Eu, Vila Maria Teresa, Cannes, e no Solar de Boulogne-sur-Seine, onde residia por intervalos e acolhia com dignidade tão afável a seus convivas a Imperatriz Exilada.
Dom Luis Gastão, onde quer que estivesse, se acomodava a tudo, se mostrava comunicativo, espontâneo e recebia da melhor maneira possível, os companheiros de brincadeira inesperados. Contudo, sempre preferia a solidão. Parecia não se prender a nada.
Tinha gosto pela observação até a abstração do sofrimento, certo dia com um caranguejo que lhe pinçava o dedo, considerou interessado: "Um morde, e o outro sangra".
Sempre foi resignado e nunca foi comodista preocupado consigo, dizia sempre: 'Isto Basta."
O pai, D. Luis, Príncipe Imperial do Brasil, cuidava pessoalmente da educação profana de seus filhos, com método próprio, deixando as lições de catecismo para a mãe.
Jamais admitia rigorismo extremos com as crianças, nem tampouco, que se infundisse nelas algum medo.  
 Por serem descendentes (bisnetos) de Luís Felipe, as leis da Terceira República os impedia de lutar pela França na I Guerra Guerra Mundial. Contudo, D. Luis, Príncipe Imperial não se valeu da escusa, ofereceu-se ao presidente Poincaré para lutar no exército francês. Recusada a oferta, ofereceu-se ao Príncipe da Bélgica, aliada da frança, que era seu parente por ascendência de Luís Felipe. S. M. também declinou o pedido. Uniu-se ao exército inglês de Jorge V, como capitão do Estado-Maior do general Douglas-Haig. E assim, pôde, no exército inglês, lutar pela França, sua pátria por sangue paterno e por adoção forçada.
O pequeno Dom Luís, era ainda muito pequeno, mas o Bon Papa, Conde d'Eu, não perdeu a oportunidade de deixar, na jovem mente, uma lembrança do heroísmo paterno. Mostrou ao menino o uniforme e a espada do pai: "Olhe, veja isso! Mais tarde, será preciso partir, também, para a guerra e lutar, como o papai, para defender a França."
D. Luís, o Príncipe Imperial, sucumbiu a um forte resfriado no fronte de batalha, e voltou para a casa, onde pôde morrer após a recepção dos sacramentos e a vista dos filhos, dando um último brado: "Eu Creio."

Este fim Cristão do pai, ficaria em sua memória para sempre. 

quinta-feira, 27 de junho de 2013

GABRIEL GARCIA MORENO - II






GUERRA COM O PERU – EXPULSÃO DE URBINA
(1.858 - 1.860)

         Já há muito que o Peru tinha contendas com o Equador por questões de limites de terra. O desmando de Robles em ceder parte dessas terras litigiosas aos norte-americanos e ingleses culminou na explosão da guerra.
          A referida Guerra, como ficou dito na postagem passada, interrompeu os sucessos parlamentares de García Moreno, justamente porque o Congresso concedeu poderes extraordinários ao Presidente Robles. Este, por sua vez, munido de tanto poder sobre as casas do Congresso, empossou Urbina como um auxiliar administrativo e militar. Urbina não se deixou esperar para abusar do novo cargo, ordenando a dissolução do Congresso e o fuzilamento dos opositores, entre eles, Gabriel García Moreno.
          Gabriel Garcia Moreno, era patriota, sem dúvida. Mas eis aí a linha tênue que o mundo contemporâneo não enxerga, que está entre o Nacionalismo e Patriotismo. O Nacionalismo é um vício causado pelo amor exagerado à pátria, enquanto o Patriotismo virtuoso é o amor moderado. E amando moderadamente e ordenadamente a sua pátria, reconhecia que o Peru tinha razão quanto às questões de suas cidades limítrofes, injustamente apropriada pelo seu Equador, e mais injustamente cedidas à terceiros. Isso, mais a condenação súbita ao fuzilamento, compeliram García Moreno a refugiar-se em Lima, capital do Peru.
          Assim que teve notícias de que o povo equatoriano finalmente se revoltara contra os desmandos de Urbina e Robles, voltou à sua terra, em uma viagem cheia de perigos, e sacrifícios. Através de florestas densas, desertos imensos e regiões desconhecidas, dirigiu-se à Quito. Perdeu o guia e o cavalo. Viu-se obrigado a achar o caminho sozinho e à pé, exposto a morrer durante a viagem ou a ser preso pelos inimigos, até que chegou ao termo desejado.
          Chegando a Tambuco, não descansou. Tomou ciência minuciosa sobre a situação e fundou um periódico: o “1º de Maio”. Trocando a pena pela espada, pôs-se à frente de cerca de oitocentos homens mal armados e foi ao encontro das tropas de Urbina, e Robles, muito mais numerosas do que as suas. Deu-se a Batalha de Tambuco. Por seis horas incessantes García Moreno sustentou o fogo contra as tropas urbinistas infrutiferamente. Ainda que derrotado na batalha, determinou-se a ir à capital. Quando chegou à Quito, o povo inteiro, satisfeito por vê-lo ainda vivo, fez-lhe estrondosa manifestação.
          Aliou-se ao General Guilhermo Franco em Guayaquil e com ele organizou um governo provisório para, finalmente, derrubar Urbina, e Robles. A luta foi rápida e Urbina, e Robles derrotados foram deportados. Guilhermo Franco, aliado de Gabriel García Moreno, proclamou-se, então, presidente do Equador e García Moreno, percebeu que tinha diante de si um continuador das políticas urbinistas.
          García Moreno, na qualidade de Chefe do Governo Provisório, foi à Guayaquil conferenciar com Franco. Mal tinha ele deixado Guayaquil, quando um bando de assassinos o perseguiu. Escapou-lhes, porém, e se refugiou em Riobamba, onde desejava descansar. Não chegara para ele a hora do descanso. Os antigos soldados de Urbina, estavam ali aquartelados, sob ordens de Franco. Assim que souberam da presença de García Moreno, invadiram os seus aposentos gritando ordens de renúncia ao cargo do Governo Provisório. “NUNCA!” respondeu García Moreno, sem se perturbar. A guarnição prendeu-o e o seu comandante lhes deu ordens de não o perder de vista. Os soldados, porém, se entregaram às dissipações da noite e dos desejos da carne, e foram pouco a pouco abandonando o posto. Ficou, no entanto, um sentinela fiel. García Moreno, dirigindo-se à este único guarda, lhe disse imperativamente:
          – A quem fizeste juramento de fidelidade?
          –  Ao Chefe do Estado. – respondeu o guarda trêmulo.
          –  Pois o chefe de Estado sou eu; teus oficiais são rebeldes e perjuros. Não tens tu vergonha de faltar à Deus e à Pátria? Segue-me!
          O soldado, persuadido de que estava a pecar, passou, então, a ajudar o Chefe de Estado. Preparou a fuga de Riobamba e foi com García Moreno convocar os aliados da vizinhança. Com catorze voluntários, voltou à Riobamba, onde acharam a guarnição traidora embriagada e prenderam dois dos principais bandidos. Formou com os seus catorze um conselho de guerra e os condenou ao fuzilamento por alta traição. Todos os revoltosos, espantados pela severidade do castigo, se sujeitaram a ele, reconhecendo a justiça da pena e se confessando antes de receber a pena capital.
          Restabelecida a ordem em Riobamba, Gabriel García Moreno continuou sua viagem à Quito.

TOMADA DE GUAYAQUIL – GARCIA MORENO PRESIDENTE
(1860 - 1861)
  
          
          Gabriel García Moreno e Antonio Flores Jijón formaram um exército para depor Guilhermo Franco. Escreveram com os seus soldados uma das mais heróicas páginas da história militar das Américas. Esse grande feito marcou a expulsão de Franco.
         O tesouro estava esgotado após tantas revoltas. García Moreno iniciou rápidas reformas políticas na qualidade de presidente interino da República. O Liberalismo dominante o impediu de fazer as câmaras elaborarem uma constituição católica, no entanto, conseguiu manter a Religião Católica como oficial do Estado e fazer aclamar Nossa Senhora das Mercês patrona do Equador. Terminados os trabalhos constitucionais, instituiu o sufrágio universal proporcional(assim, cada pai de família poderia ter direito a tantos votos quantos filhos menores de idade tivesse). García Moreno foi eleito Presidente da República pelo quatriênio que se seguiu.

PRIMEIRA PRESIDÊNCIA – CONCORDATA COM A SANTA SÉ – REFORMAS
          
É interessante contar um episódio que se deu logo após esta primeira eleição. Dona Rosa Ascasubi Moreno, fez-lhe notar que convinha oferecer um banquete oficial aos ministros e ao corpo diplomático. García Moreno lhe respondeu que sua pouca fortuna lhe vedava tal despesa desnecessária. Dona Rosa foi ao seu gabinete e voltou com quinhentas piastras, que deu ao marido para que organizasse o banquete. García Moreno as aceitou enternecido e imediatamente saiu de casa. Mas, ao invés de encomendar o jantar, dirigiu-se ao hospital e entregou a soma inteira às necessidades mais urgentes dos enfermos, e deu-lhes um jantar em honra de sua eleição. Quando se encontrou novamente com sua esposa, disse-lhe: “Pensei que uma boa refeição mais bem faria aos doentes do hospital do que aos diplomatas.” Dona Rosa Ascasubi Moreno, que já conhecia bem a sua generosidade, sorriu e estimou-o mais ainda desde aquela hora.
          O país ainda se encontrava em desordens e Moreno iniciou uma série de úteis reformas. Reorganizou as repartições públicas, consertou as finanças, despediu os empregados públicos desleixados, apurou as responsabilidades dos antigos mandatários e procurou reformar o exército, dando-lhe diretrizes e moral cristãs. Até então, o exército, esquecido de sua alta missão de mantenedor da paz, se havia envolvido em política, exercendo um contínuo despotismo.
         Aceitando o poder, Gabriel García Moreno fez compromisso pessoal de acabar com a fanfarrice dos militares. “Um exército constituído como o nosso – dizia ele – é um cancro que rói toda a nação; ou reformá-lo-ei ou destruí-lo-ei.”
           Tendo sabido que o General Ayarza, chefe dos militares descontentes, urdiu uma conspiração contra o Governo, levou-o ao quartel para açoitá-lo diante de todos, como se fosse um simples soldado.
           – Fuzilai-me! - gritava Ayarza – Não se açoita um general!
           – Não se desperdiça pólvora para fuzilar um traidor! – redarguiu Garcia Moreno
           O castigo foi severo, mas o fim alcançou-se. O exército entendeu que a era dos seus desmandos tinha passado e, com efeito, tornou a entrar na ordem.
            Fez vir, então, para o Equador os religiosos jesuítas e de outras ordens, entregando-lhes a educação, e o ensino da juventude equatoriana. Construiu estradas e intensificou as comunicações no país. Finalmente concluiu com a Santa Sé uma concordata das mais notáveis, por ser a mais cristã de todas as concordatas.

CONCÍLIO DE QUITO – DERROTA DE TULCÁN – EXPEDIÇÃO DE ZAMBELLI
 (1.862 – 1.863)

          Com a tranquilidade da qual a Igreja gozava, os bispos equatorianos puderam convocar o Concílio de Quito, sob a proteção de García Moreno e o Clero do país pôde ser reformado. Criaram-se três novas dioceses e seminários em todas as existentes.
          O sossego e a paz foram, no entanto, perturbados por um incidente com as tropas colombianas. García combateu essas tropas, mas foi derrotado em Tulcán. Mas a sua conduta foi tão nobre, que o general colombiano chamou-o de vencedor e concluiu com ele um tratado.
           Urbina tentou voltar ao poder a todo o custo. Havia inúmeras revoltas em Guayaquil e o Congresso fez tudo o que pôde para impedir o presidente de agir livremente. Gabriel García Moreno chegou a pedir a demissão do cargo, mas o Congresso não o deixou.
          Seguiu-se ainda uma guerra com a Colômbia, mas o Equador saiu vitorioso, mas não sem ter de condenar ao fuzilamento o General Maldonado, que havia traído as armas do Equador.
          Ocorreu mais um incidente com Urbina. As tropas urbinistas apoderaram-se de um navio à vapor inglês, o Washington, devido a um suborno de mil piastras orquestrado entre Urbina e o comandante do navio. Apoderado do navio à vapor, conseguiu usurpar também o Guayas, único navio de guerra do Equador, à custa da vida dos oficiais e marinheiros. Senhores do Guayas, dirigiram-se ao Bernardino, outro navio comerciante. Com estas três presas, refugiaram-se na enseada de Zambelli, a sete léguas de Guayaquil, enquanto os impotentes canhões da cidade anunciaram a perigosa tentativa de Urbina para retomar o poder.
          Três dias após estes fatos, Gabriel García Moreno, que, então, estava retirado a três léguas da capital para restabelecer a saúde seriamente comprometida, ficou inteirado de tudo. Em um instante tomou uma resolução e assentou o seu plano de campanha. Voltou à capital e sem comunicar o motivo, senão ao vice-presidente, Carvajal, dirigiu-se logo à Guayaquil, percorrendo em três dias as oitenta léguas que separam Quito desta cidade.
          O povo em Guayaquil estava sumamente agitado e não imaginava como o presidente venceria esta empresa sem navios nem meios de os comprar. Sua curiosidade foi logo satisfeita. Tendo entrado um navio inglês, o Talca, no porto de Guayaquil, Gabriel García Moreno, rapidamente negociou com o comandante a sua aquisição pelo Governo do Equador. Estava armado o plano: armar o navio mercante e só com ele investir contra os três navios urbinistas. Conservadores e liberais mostraram-se zelosos em ajudar o presidente, os primeiros por patriotismo e os segundos por crer que o presidente não sairia com vida desta empresa temerária.
           Reunindo os seus soldados, Gabriel García Moreno dirigiu-lhes estas palavras: “Não quero senão homens que tenham no peito coração de bravo; passem os valentes para a minha direita e os covardes para a esquerda!” Todos se colocaram à direita. Satisfeito, Gabriel García Moreno escolheu duzentos e cinquenta dentre os oficiais, e ordenou-lhes que embarcassem. Repassando algumas palavras de confiança em Deus e de ardente patriotismo, exaltou a coragem da pequena, mas heróica tropa. Eletrizados por aquelas nobres palavras, os soldados deixaram o porto ao grito de “Viva García Moreno!”
           Tinha à sua disposição o Smyrk, um pequeno navio à vapor que servia de explorador. Este reconheceu e comunicou a posição exata dos inimigos. O momento decisivo tinha chegado. O Guayas disparou seus canhões contra o Talca. Por mais que os soldados temessem, Gabriel García Moreno ordenou que nenhum disparo inútil fosse dado. “Punhal à mão!” – gritou o presidente e o Talca à todo o vapor se arremeteu em direção ao Guayas, e, chegando a uma distância conveniente, descarregou a sua artilharia. Por causa dos disparos, uma larga brecha se abriu no navio e o Talca pôde penetrar-lhe, cortando-o ao meio. Os revoltosos pereceram quase todos por causa do choque e os demais no mar, tentando fugir ou em luta direta com os soldados de Gabriel García Moreno. Capturado o Bernardino quase sem resistência, faltava alcançar o Washington, que estava quase na praia. Urbina e Robles, que haviam banqueteado a noite inteira, de tão estupefatos pelo soçobrar do Guayas, fugiram com toda a tripulação do Washington, refugiando-se nas matas do litoral. Quando o presidente aproximou-se, encontrou o navio completamente abandonado. Urbina e Robles tiveram tanta pressa em fugir que deixaram os tesouros, e suas correspondências sumamente comprometedoras. Três dias depois não ficou um só urbinista no Equador. Refugiaram-se todos na fronteira com o Peru, decididos a não atentar contra o Governo tão cedo.
          Os quarenta e cinco prisioneiros foram julgados pelo Conselho de Guerra, à bordo do Talca. Dezessete foram perdoados pelo presidente, que entendeu o terem sido forçados à traição. Os demais foram condenados ao fuzilamento, enquanto a esquadrilha voltava à Guayaquil. Gabriel García Moreno, que levara sacerdotes para a empresa audaciosa, quis que eles tivessem a chance de ter os seus pecados perdoados pela justiça divina, já que a justiça humana lhes fora menos clemente, porque não tinha a eternidade para se exercer. E assim, antes destes traidores da pátria serem fuzilados, muitos puderam receber a absolvição das mãos de um padre e encomendar a alma à Deus. O Smyrk foi adiante levar as novas da derrota de Urbina e, quando o povo o avistou, lastimou, crendo que trazia as novas da derrota de Gabriel García Moreno. Quando o povo, no entanto, avistou o presidente, entrou em frenesi. A entrada de Gabriel García Moreno em Quito foi um verdadeiro triunfo. O povo inteiro o proclamou herói do Equador, o homem da Providência, o domador da Hidra Revolucionária. Uma só nuvem encobria o sol daquele dia solene em que o povo festejava a sua libertação: Gabriel García Moreno em breve entregaria as rédeas do governo à outrem com o fim de seu mandato. O governo de um bom rei acaba rápido, mas o governo de um bom presidente acaba mais rápido ainda.

Continua ...